terça-feira

14-abril-2026 Ano 2

O dilema de Sísifo: qual o propósito de uma geração cínica?

Através do riso e da ironia, a Geração Z colocou em risco o sentido de amar. Se antes o sentimento era visto como força, hoje ele é o peso que nos esmaga.
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Em meio à devastação da França pelos nazistas, em 1942, Albert Camus (filósofo absurdista) atestou: “É preciso imaginar Sísifo feliz”. Sísifo, o homem que, ao driblar a morte, é condenado pelos deuses a rolar eternamente uma pedra sobre a colina — esta que jamais apresentará topo — é a alegoria de uma sociedade castigada pelo cansaço. Camus pontua que precisamos encontrar, no caos da repetição, ou na infinitude do rolar da pedra, o sentido e o propósito da existência — mesmo que estes não existam. Em um cenário de mudança das relações ou das perspectivas filosóficas, seria a Geração Z o capítulo em que Sísifo é finalmente esmagado? Qual é o peso da pedra que os jovens carregam?

Imagem em preto e branco em sobreposição de uma jovem e uma idosa. O ambiente é um parque - ao fundo pode-se observar inúmeras árvores e uma cesta de lixo.
Foto em preto e branco de uma senhora e uma jovem em sobreposição. Foto: Juliana Nacagawa/Agenzia

O propósito nas gerações

Realizando entrevistas no centro de São Paulo com pessoas de diferentes gerações sobre a existência e busca do amor nos dias atuais, a resposta mais recebida entre os jovens foi relacionada ao amor estar em segundo plano. Enquanto os mais velhos relatam terem sido instruídos, desde pequenos, a buscarem construir uma família.
Perguntado se o amor deveria ser o propósito da vida, Victor Emanuel Dias dos Santos, de 81 anos, disse:

“Tem que ser. Sem amor não tem graça. O amarelo vira vermelho, o azul vira verde. Não tem jeito. Tem que ter amor. Tem que existir.”

Ainda na mesma pergunta, Jefferson Rodrigues, de 31 anos, nos disse:

“O propósito da vida é você viver de maneira bem, e não só consigo, mas com outras pessoas. Então, acho que amar é como se fosse um segundo plano.”

Para Fernanda Souza, de 17 anos, o amor não tem relação com seu propósito de vida:

É possível perceber que, com o tempo, os propósitos de vida foram mudando, e as gerações Y e Z, diferentemente das anteriores, não buscam a felicidade e um amor externo, mas sim a realização própria. Para a historiadora Marili Bassini, a cultura de memes e da ridicularização pode adiar a busca do jovem pelo amor:

“Quando eles superficializam tudo isso, essas relações vão demorar mais para serem consolidadas.”

Cinismo: quando a felicidade nos traiu?

Foto em preto branco da autora bell hooks olhando para a cãmera.
Foto: Divulgação

“No fim das contas, o cinismo é uma grande máscara para um coração decepcionado e traído”

(HOOKS, 2021, p. 30).

Se, para Camus, era necessário imaginar Sísifo feliz mesmo diante do absurdo, a Geração Z parece ter feito o contrário: antes mesmo de subir a encosta, já desconfia da inexistência de qualquer resquício de felicidade no topo. Não se trata mais de encontrar sentido no esforço, mas de questionar se o próprio esforço não é, desde o início, uma completa ilusão.

É nesse ponto que a leitura de bell hooks se oferece como um diagnóstico direto de nossa sociedade. Em sua obraTudo Sobre o Amor: Novas Perspectivas(2021), ela aponta que fomos socializados a entender o amor de uma forma praticamente limitada, quase sempre como algo passivo e espontâneo, que simplesmente acontece.
“O amor é uma ação, uma emoção participativa”, escreveu hooks.

Essa definição expressa, logo de início, sua ideia sobre o cinismo, já que ele nasce do contrário: a experiência repetida de esperar que o amor aconteça e o enfrentamento da frustração quando ele falha. Em um ambiente cínico, isso se embaralha. Há, portanto, uma inversão silenciosa, sendo que relações vazias, desgastantes ou até violentas passam a ser normalizadas, enquanto demonstrações genuínas de cuidado e afeto soam como exageradas, ingênuas ou até ridículas.

O resultado é que a felicidade não desaparece completamente, mas acaba se tornando suspeita, algo que precisa ser ironizado antes mesmo de ser experienciado.

A mídia de ridicularização

Hoje em dia, não ser número é cada vez mais desafiador. Esse fenômeno da ironia de tudo também afeta a visão do jovem sobre o amor. O meme transforma o afeto em vergonha e a emoção em carência, e os personagens de bestialização do romance se tornam clássicos: a “emocionada”, a “histérica” ou o “gado”. O julgamento é tão feroz que ser sentimental vira sinal de fraqueza intelectual, mas não demonstrar afeto e individualizar-se por um muro de racionalismo traduz sensatez e inteligência.

Para a psiquiatra Laura Barros, a racionalização é uma consequência do imediatismo atual:
“A gente está falando muito sobre catexia, principalmente na geração atual — o que faz muito sentido, justamente porque nós somos de uma geração em que tudo realmente é muito imediato. Temos muito acesso à informação, então é quase natural, de alguma forma, racionalizar as coisas, pois foi a única forma como a gente foi aprendendo já ali desde criança”, explica.

O cinismo funciona como uma anestesia: ele permite rir daquilo que, no fundo, ainda desejamos. Essa “sátira de tudo” não surge no vazio, ela é produto de uma cultura que esvaziou e vendeu o significado do sentimento. Amar torna-se sinônimo de “vergonha alheia”, e ser amante torna-se falta de razão. Toda a criação de uma indústria que simplifica a emoção trabalha para um único sentido: o desencantamento de um propósito que não produz e efetua a lógica do capital imediato.

Amor a cabresto

O sentimento vira expositivo demais, e assumir transforma-se em risco afetivo. É nessa repressão do sentimento que o amor se torna “cabresto” — amarrado e controlado.

Para Scott Peck, psiquiatra, a catexia seria a energia libidinal e psíquica saciada em um sujeito/objeto. Isto é, a vergonha que reside no ato de amar resulta em uma cultura relacional de catexia, na qual extrai-se do conceito de “relacionamento” apenas a saciação do prazer, vista na recente onda da relação de “ficante” — referente ao parceiro sexual pelo qual não se rotula um relacionamento. Equiparando-se à dinâmica de mercado, o propósito afetivo transforma-se em uma moeda de troca libidinal, que visa cobrir um valor específico e contábil.

Laura Barros afirma que temos muito acesso às pessoas e à informação, tornando o relacionamento tendencioso.

“Ter essa gama de opções vai gerando esta questão da catexia — essa coisa muito rápida, muito fluida e superficial mesmo ali no relacionamento”

Em frente a tantos fenômenos, talvez o verdadeiro esmagamento de Sísifo aconteça aqui: quando já não vemos mais motivação para empurrar a pedra. Antes mesmo de ela cair morro abaixo, somos derrotados antes de notar que o inferno de Sísifo não foi o sol ou a colina.

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Ana Júlia Milheirão Barros

Estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, com interesse na área de cultura e politica.