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20-abril-2026 Ano 2

Dependência química: o olhar e as dores dos familiares

Entenda como os entes queridos sofrem convivendo com um membro adicto em drogas/álcool e o papel dos projetos sociais.
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No Brasil, 1 em cada 12 pessoas usou drogas ilícitas no último ano, segundo o levantamento nacional mais recente da Unifesp (2023). Esse relatório evidencia o elevado número de usuários de drogas no Brasil, um fenômeno que só cresce desde 2012. Estudos já documentaram de forma farta como o consumo contínuo da droga é prejudicial, e em alguns casos, somente a “experimentação” é capaz de revirar a vida de uma pessoa de cabeça para baixo. Mas nem todos prestam atenção em como a dependência química afeta todos os que estão em volta do viciado, sobretudo os familiares. 

Antônio Valim, voluntário da Federação de Amor Exigente (Feae) há 30 anos, lembra que “o álcool vem desde antes de Jesus”. Há séculos, é uma espécie de “convidado honorário”, quase um item obrigatório em celebrações. “Na minha profissão, eu fui vice-presidente da Associação dos Protéticos e eu tive que organizar jantares da minha profissão, todos regados a álcool“, lembra Valim, que na época já havia iniciado o tratamento para dependência química.

Reconhecida como uma doença crônica pela Organização Mundial de Saúde (OMS) desde 1967, o uso do álcool por jovens no Brasil continua em rota crescente. O consumo pesado entre menores subiu de 28,8% para 34,4%, o que demonstra uma falha na prevenção. Alberto Edwards, neuropsicanalista com mais de 17 anos de experiência em grupos de auto-ajuda, assegura que o álcool é mais prejudicial que a cocaína e o crack: “O álcool é a única droga que dá dependência física e psíquica”, disse à Agenzia. Como a bebida alcoólica costuma estar ligada a datas comemorativas, o alto consumo acaba por ser normalizado, e consequentemente, seu consumo se torna banalizado. 

Neuropsicólogo e adicto limpo Alberto Edwards dando depoimento à Agenzia no evento do projeto social Amor Exigente.
Alberto Edwards durante a entrevista à Agenzia – Foto: Viviane Botelho/Amor Exigente – Divulgação 

Falta conscientização

“É muito fácil entrar no mundo das drogas, mas é muito difícil de sair”, afirma Miguel Tortorelli, hoje voluntário e ex-presidente da Feae. A frase, que parece óbvia, esbarra na prevenção e na reabilitação. Segundo Tortorelli, por diversas vezes ele tentou participar de programas de televisão e palestras em escolas, mas sem sucesso. “O pessoal tem receio, tem medo de fazer programas sobre droga, na televisão. Pode ver, não tem nenhuma que fale sobre isso daí. E ninguém traz dados atualizados sobre as drogas”, afirma.

Tortorelli dá ênfase na importância da conscientização e do combate ao uso das substâncias. “Temos que tentar fazer o impossível para levar a prevenção para as escolas. Isso nós temos que fazer.” Cristina Lo Sardo, psicóloga especialista em dependência química, afirma que o tema enfrenta uma resistência generalizada. Numa palestra a uma escola, entendeu a dimensão do problema.

Eu posso falar sobre as substâncias?” Não, não pode. ‘Os pais não permitem que aqui se fale sobre as drogas.’ Então, eu não pude falar. Eu percebo esse tabu” Cristina Lo Sardo

Cristina Lo Sardo psicóloga especialista em dependência química sentada com um microfone na mão dando entrevista à agenzia
Cristina Lo Sardo durante a entrevista à Agenzia – Viviane Botelho/Amor Exigente – Divulgação 

Reabilitação e suas dificuldades

O papel da família no período da reabilitação é tão essencial quanto a vontade própria do adicto de se recuperar. Entender qual deve ser a postura e o modo de agir nesses casos é fundamental. Mas muitas famílias não possuem conhecimento, seja por uma dificuldade de abordar sobre a dependência química ou por não ter acesso às informações.

O empecilho desse processo se dá pelo reconhecimento que o dependente deve possuir de sua própria situação. Não só isso, como ele deve querer buscar melhorar, e essa “virada de chave” é um dos maiores desafios que os profissionais da área enfrentam. “Ele tá no uso, tá disfuncional. Então ter consciência é muito difícil. Por isso, é uma doença bastante complexa”, disse Cristina Lo Sardo.

Usuários de drogas também sofrem com as recaídas, causadas por situações de estresse, ansiedade e melancolia. Locais frequentados e pessoas presentes no círculo social também influenciam esse tipo de dependência química. É importante pontuar que não existe um “ex-adicto”, segundo explica o psicólogo Gilmar Miranda: “O adicto não vence a droga, ela sempre vai ter o seu potencial viciante. O dependente químico será sempre impotente perante a substância psicoativa”.

Os desafios dos familiares

É muito comum os parentes adoecerem junto do usuário de drogas. Na tentativa de curar o outro, eles param ou esquecem de cuidarem de si mesmos. Em muitos casos é gerado um sentimento de culpa, onde se assume a responsabilidade sobre a situação do membro da família. O psicólogo Luiz Fernando Cauduro relata que, como pai permissivo, dizia “sim” para tudo que seus filhos queriam, o que o tornava “o melhor pai do mundo”. No entanto, quando houve uma mudança de comportamento, ele se tornou “o pior pai do mundo”, pois começou a impor limites. A família se desestabilizou e teve de dar um passo para trás. Poderia ser uma solução, mas ao mesmo tempo pode atrapalhar o processo de reabilitação.

Autores

  • Kayan Sho Ozawa

    Sou estudante de Jornalismo no primeiro semestre na Faculdade Cásper Líbero e redator do projeto Agenzia.

  • Pedro Fachini Araujo Pinheiro, estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e redator do Projeto Agenzia. Apaixonado por futebol, almejo carreira como jornalista esportivo. Entre aula e games, aprimoro continuamente a minha escrita.

  • Joaquin Tavares, estudante de jornalismo da Cásper Líbero e redator do projeto Agenzia.

  • Eduardo Martins Beltrão
  • Henrique Teixeira Quinto Bella, estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e redator do Projeto Agenzia.

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Kayan Sho Ozawa

Sou estudante de Jornalismo no primeiro semestre na Faculdade Cásper Líbero e redator do projeto Agenzia.