
Eugenio Attizani Neto posiciona o celular aberto em uma foto de Zulmira sobre as partituras. Antes de tocar a primeira nota ou mesmo soltar a voz, ele cumpre o ritual: “Essa é para você, Zuquinha”. A dedicatória é recorrente nas aulas de voz e teclado que ele frequenta na School Of Rock, em São Caetano do Sul. Ali, sob a orientação da professora Luna Gouveia, ele desfila os sucessos de Roberto Carlos e Luis Miguel que marcaram décadas ao lado da companheira.
A reconexão com a música foi um pedido dos filhos após a morte de Zulmira. Eugênio, devoto do canto, aceitou o desafio. Luna relembra o primeiro encontro: “Ele entrou na aula experimental, sentou e disse: ‘Perdi minha mulher tem cinco meses’. Fiquei sem saber o que responder. Mas falar é uma coisa que ajuda ele a se curar”.
O casal se conectava pela música. Décadas atrás, no saguão do Hotel das Cataratas, em Foz do Iguaçu, Eugênio deixava os turistas confusos ao transformar a lua de mel em um recital particular para Zulmira Pedroni Attizani. “Eu cantava alto. Não me importava. As canções eram todas para ela. A minha vida inteira foi dessa forma”, relembra, com os olhos marejados. Desde que ela partiu, em setembro de 2024, a música que sempre habitou o espaço entre os dois tornou-se sua principal companhia.
O destino no ônibus
Em novembro de 1965, Eugênio tinha 17 anos e passou a observar a menina que fazia o seu mundo parar no trajeto diário de ônibus. A timidez quase o fez perder a chance. As férias chegaram e eles perderam o contato. Mas com a chegada do novo ano, finalmente conversaram e descobriram uma série de coincidências: faziam aniversário no mesmo dia e mês, as mães tinham o mesmo nome e ambos haviam se mudado para Santo André no mesmo ano. Para Eugênio, não havia outra explicação: “Era destino”.

Hoje, ele cultiva essa presença nas imagens da galeria do telefone, que exibe com orgulho a quem se aproxima. Foram 54 anos de casamento e quase seis décadas de parceria. “Tenho 77 anos. Fui casado durante 54 anos e 10 meses, namorei intensamente durante 58 anos e 4 meses, flertei por 6 meses antes de namorar”, conta. Ele guarda na ponta da língua a contagem precisa do tempo ao lado de Zulmira. A história, longa e sólida, hoje se condensa no gesto de cantar.
A cura e o teclado
O conceito de cura ganhou outro significado quando a professora Luna lançou seu álbum autoral, Sara – do verbo “sarar” – coincidentemente no aniversário de morte de Zulmira. Católico e corinthiano fiel, Eugênio ouviu o disco como uma mensagem espiritual. Na batalha contra o luto, ele encontra nos versículos da Bíblia e nas melodias sinais de que Zuquinha ainda se comunica com ele.

Além da voz, instrumento que domina desde os 10 anos, Eugênio agora descobriu uma nova paixão: o teclado. Embora confesse insegurança com as teclas, valoriza a paciência da instrutora. “Me corrija se eu estiver num ritmo diferente. Eu quero que você me corrija” ele pede. A troca é mútua: “É uma experiência tanto para ele quanto para mim. Ele me ensina muito”, diz Luna.

O silêncio e o eco
A partida de Zulmira foi súbita. Em maio de 2024, uma cirurgia na coluna revelou uma metástase que avançou em apenas quatro meses. Eugênio deixou o trabalho para se dedicar exclusivamente aos cuidados da companheira. “Aproveitei bem a vida. Ela também. Tudo que eu tenho, tudo que sou, tudo que sei é por causa dela”, reflete sobre o desfecho dessa história.
A música, hoje, não deixa de ser um retorno à infância de Eugênio, quando o pai tocava acordeão. Aos 10 anos, cantava na Rádio Clube de Santo André e chegou a ser convidado para um teste na TV Tupi. Mas o pai, com medo, recusou a carreira artística: Anos depois, ao confessar à Zulmira o arrependimento de não ter abraçado aquela oportunidade, ouviu dela: “Se você tivesse ido, talvez a gente nem se conhecesse”. Ele, mais uma vez, retrucou:
“Não. Você era destino”.
Atualmente, o silêncio do apartamento em São Caetano é interrompido pelo karaokê na televisão e pela presença da diarista três vezes por semana. Preocupado em não incomodar os vizinhos, mas decidido a não deixar o vazio se instalar em sua vida, ele pratica as canções que dedicará à Zulmira na próxima aula.

Eugênio já não confunde mais os turistas do Hotel das Cataratas, mas segue cantando para o amor que permanece. Em La Barca, de Luis Miguel, os versos dizem que “a sua barca partirá, mas pense que estarei por ti esperando até que decidas regressar”. Zulmira partiu, mas ele fica, fiel ao que construíram, transformando a saudade em notas de memórias.
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